Opinião: Fórmula 1 e gestão de empresas

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Na Fórmula 1, como toda a gente sabe, acelera-se tanto quanto for possível, sendo que todos os carros na grelha de partida são capazes de ir dos 0 aos 200 km/h em cerca de quatro segundos, atingindo uma velocidade média de 360 km/h. Porém, para que uma equipa de Fórmula 1 tenha sucesso, não basta movimentar-se rapidamente na pista. Nos bastidores, engenheiros e mecânicos precisam de saber exatamente o que estão a fazer – e fazer todas as correções o mais rapidamente possível, sobretudo na situação de alta pressão da paragem nas boxes, onde cada segundo conta. Levando em conta que cada equipa tem habitualmente dois carros na pista, não se trata de uma tarefa fácil.

Contudo, de que modo é que isto é relevante para as empresas? Bem, assim como uma organização precisa de acompanhar exatamente o que está a acontecer em toda a empresa, através de sistemas de CRM e ERP, ou na sua indústria, por meio da observação de tendências, as equipas de Fórmula 1 têm a necessidade de manter-se a par de tudo o que está a acontecer ao seu redor. Não só têm que compreender qual é a condição dos seus carros, enquanto a corrida está a decorrer, de modo a intervir tão eficazmente quanto possível nas boxes, mas também precisam de ter informações sobre corridas e paragens nas boxes anteriores, para que possam atuar com a máxima eficiência possível, tendo em conta o que aconteceu no passado. Além de tudo isso, têm que controlar o progresso dos seus concorrentes – não apenas a sua posição final, mas detalhes a respeito de quão mais rápidos ou lentos foram.

As pessoas não costumam pensar nas semelhanças existentes entre a Fórmula 1 e o mundo dos negócios, e ainda menos o fazem quando se trata de big data. E, no entanto, os três estão intimamente ligados, dado que o uso correto de big data pode ser tão importante para o sucesso de uma equipa como é para o sucesso de um negócio. À medida que a tecnologia se tem desenvolvido, as equipas de Fórmula 1 têm sido capazes de acrescentar telemetria aos seus carros para gravar uma série de dados, desde os tempos de qualificação até aos tempos das voltas, informações sobre paragens nas boxes e até mesmo informações sobre curvas.

Assim como uma empresa utilizaria essas informações para ver onde poderia melhorar as suas operações, ou mesmo para atuar com superior rapidez no mercado, as equipas de Fórmula 1 e os seus pilotos são capazes de digerir a informação para compreender plenamente os seus carros e compreender como podem obter melhores tempos nas suas voltas. Com os dados de telemetria disponíveis em tempo real, esta informação até pode ser aproveitada durante a própria corrida, a fim de que o piloto possa ser aconselhado sobre o menor dos detalhes, seja a respeito de como pode fazer melhor uma determinada curva ou de um trecho específico da volta em que está a perder tempo de forma repetitiva. De modo similar, numa empresa, os departamentos de RH podem ver em tempo real quais são as situações em que o pessoal é mais valioso. No retalho, isso ocorre especialmente quando os funcionários podem ser transferidos entre diferentes espaços para satisfazer os níveis de procura dos clientes.

Para uma equipa de engenharia na Fórmula 1, o acesso a estes dados em tempo real é inestimável quando se trata de situações de paragens nas boxes. Saber exatamente o que não está bem no carro antes de o mesmo parar significa que é possível estar preparado para fazer uma correção rápida com a máxima brevidade – poupando segundos preciosos para que o carro regresse à pista assim que precisar. Para uma empresa, isto também é imperativo. Quando se trata de bater concorrentes e permanecer na dianteira do mercado, qualquer empresa precisa de saber exatamente o que está a acontecer em tempo real, de modo a que possa não só responder mais rapidamente aos clientes, mas também garantir que está a reagir às mudanças do mercado à medida que estas ocorrem.

A velocidade é claramente essencial, tanto no mundo dos negócios como na pista de corrida. Por isso, na próxima vez em que estiver a ver o Sebastien Vettel a acelerar pelo circuito, lembre-se de que a análise de dados é tão importante para a sua condução como pode ser para trazer sucesso ao seu negócio e que quanto mais pessoas na sua equipa tiverem acesso aos dados, melhores resultados podem ser alcançados.


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2 comentários

  1. Duarte Lopo Cancella de Abreu 18 Julho, 2014 at 18:24 Reply

    Caros leitores, Caríssimo Director. O artigo de opinião editado sobre a Formula 1 e Gestão de Empresas, de 28 de Maio passado, refere algumas das técnologias empregues na F.1 como uma boa ajuda para a gestão de empresas. Como investigador e estudioso sobre o fenómeno da F.1, sobre a qual editei um livro há 10 anos “Nos bastidores da Formula 1”, que foi editado pela Prime-Books e se encontra esgotado e de muito difícil aquisição. A comparação feita pelo autor da crónica, que apreciei, pode e deve ir ainda mais longe. As corridas mudaram muito na última década, com maiores limitações, quer ao nível técnico, humano ou desportivo, com o objectivo (utópico digo eu) de baixar os custos e permitir um maior desfogo às equipas. No entanto, tornaram-se muito mais tácticas, com a obrigatoriedade dos pilotos utilizarem dois compostos de borracha na corrida, e o final dos reabastecimentos. Agora os carros têm de ir para a corrida com combustível suficiente para cumprirem todas as voltas, o que provoca um substancial aumento do peso do carro na parte inicial da corrida. No que respeita á telemetria em tempo real, tornou-se ainda mais importante, mas no meu ponto de vista, o que cresceu muito foi a utilização dos sufisticados simuladores, que são utilizados exaustivamente durante a semana da corrida, para serem experimentadas e validadas algumas afinações da máquina. Pelo menos na grande maioria dos casos, ficam a saber que não vale a pena experimentar na pista, uma afinação que não foi positiva no simulador. Seria bem útil às empresas poderem usufruir de ferramenta idêntica para evitar alguns erros, que se tornaram fatais, por não terem sido simulados, ou por partirem de um feeling e não de um estudo. Duarte Cancella de Abreu – Motorsport since 1980.

    • Duarte Lopo Cancella de Abreu 18 Julho, 2014 at 18:27 Reply

      Caros leitores, Caríssimo Director. O artigo de opinião editado sobre a Formula 1 e Gestão de Empresas, de 28 de Maio passado, refere algumas das técnologias empregues na F.1 como uma boa ajuda para a gestão de empresas. Como investigador e estudioso sobre o fenómeno da F.1, sobre a qual editei um livro há 10 anos “Nos bastidores da Formula 1”, que foi editado pela Prime-Books e se encontra esgotado e de muito difícil aquisição. A comparação feita pelo autor da crónica, que apreciei, pode e deve ir ainda mais longe. As corridas mudaram muito na última década, com maiores limitações, quer ao nível técnico, humano ou desportivo, com o objectivo (utópico digo eu) de baixar os custos e permitir um maior desfogo às equipas. No entanto, tornaram-se muito mais tácticas, com a obrigatoriedade dos pilotos utilizarem dois compostos de borracha na corrida, e o final dos reabastecimentos. Agora os carros têm de ir para a corrida com combustível suficiente para cumprirem todas as voltas, o que provoca um substancial aumento do peso do carro na parte inicial da corrida. No que respeita á telemetria em tempo real, tornou-se ainda mais importante, mas no meu ponto de vista, o que cresceu muito foi a utilização dos sufisticados simuladores, que são utilizados exaustivamente durante a semana da corrida, para serem experimentadas e validadas algumas afinações da máquina. Pelo menos na grande maioria dos casos, ficam a saber que não vale a pena experimentar na pista, uma afinação que não foi positiva no simulador. Seria bem útil às empresas poderem usufruir de ferramenta idêntica para evitar alguns erros, que se tornaram fatais, por não terem sido simulados, ou por partirem de um feeling e não de um estudo. Duarte Cancella de Abreu – Motorsport since 1980.

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