Entrevista a Paulo Rosado – CEO da OutSystems

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A OutSystems foi fundada em 2001. Assume-se como uma empresa de produto desde o seu início e é um verdadeiro caso de sucesso no panorama nacional e internacional. Reconhecida em 2003 pela Fortune Magazine como uma das seis startups mais promissoras a nível mundial, tem vindo a somar prémios e reconhecimento, um pouco por todo o mundo. Tudo isto foi possível graças à visão de Paulo Rosado, responsável máximo da OutSystems e com quem a Leak Business esteve à conversa, após o evento Nextstep 2013, organizado pela marca.

P1020337Bruno Fonseca – Quando a OutSystems foi fundada pretendia-se que fosse uma empresa de serviços ou de produto?

Paulo Rosado – A OutSystems foi desde o primeiro dia uma empresa de produto, facto que se comprova facilmente pelo nível de encaixe de capital que tivemos. As empresas de serviços normalmente conseguem crescer sem dinheiro, dado que o negócio começa logo a dar rendimento. Já as empresas de produto necessitam de um nível de investimento grande, encaixámos um milhão de Euros em Outubro. Nós, inclusivamente no princípio nunca fizemos consultoria, apenas vendemos o produto.

B.F. – O que é a OutSystems Platform?

P.R. – A plataforma da OutSystems resolve um problema que existe dentro das empresas que necessitam de criar sistemas de informação e que estão obrigadas a mudanças constantes. As tecnologias tradicionais que encontramos disponíveis na actualidade, obrigam a que os negócios se adaptem aos sistemas de informação, ou então a que tenham de manter fiéis aos formatos e aplicações que foram desenvolvidas inicialmente. Isto para nós, em muitos casos, parece-nos algo completamente irrealista. Os negócios estão sempre a mudar, são mais competitivos, evoluem, as empresas crescem, decrescem, os departamentos mudam e os sistemas de informação que suportam essa mudança deviam mudar à mesma velocidade. A OutSystems, hoje em dia, é a única tecnologia que consegue produzir sistemas que são construídos para mudar, ou seja, “Built-to-Change”.

B.F. – Quais as principais novidades da OutSystems Platform, versão 8?

P.R. – A versão 8 tem várias funcionalidades “grandes”, sendo que uma delas é o suporte para tecnologia Oracle. Nós passámos a suportar middleware Oracle, o que significa que empresas que já fizeram um investimento nesta tecnologia, podem agora utilizar as soluções OutSystems sem terem de colocar outro tipo de tecnologia middleware por baixo. Para além disso, estamos a apostar fortemente na área da usabilidade, ou seja, nós chegámos à conclusão que aquelas aplicações que mais necessitam de mudança, aquelas que fazem com que as pessoas realmente utilizem os sistemas de informação, são aplicações que precisam de ser muito amigáveis, muito fáceis de usar e que assim que se detecta um problema, seja muito fácil de o corrigir. Hoje em dia, os departamentos de informática estão a sofrer uma pressão tremenda para criarem aplicações que tenham o mesmo nível de usabilidade que podemos encontrar numa aplicação da Apple, numa aplicação da Google e em outras aplicações empresariais que estão a surgir na Cloud. A OutSystems, basicamente, coloca nas mãos do departamento de TI a capacidade de criarem aplicações ao nível daquelas a que os utilizadores estão cada vez mais habituados.

P1020335B.F. – A cloud acelera a integração do vosso produto nas empresas?

P.R. – Exactamente. A plataforma da OutSystems é uma plataforma de cloud e funciona quer seja numa cloud interna, quer numa cloud externa. A cloud não tem uma medida única para todos. É muito atractiva para empresas mais pequenas, porém as empresas muito grandes, que têm outro tipo de recursos e outro tipo de considerandos, optam por uma espécie de cloud interna. A solução da OutSystems funciona com eficácia em ambas, garantindo a possibilidade da criação de aplicações muito rapidamente e consequente utilização. Quando falo em rapidamente, refiro-me a horas, ou em alguns casos, até mesmo a minutos. É a gratificação imediata de ter qualquer coisa a funcionar, não sendo necessárias grandes instalações ou esperar meses. É este o papel da OutSystems. A cloud vem reforçar ainda mais esse posicionamento.

B.F. – Utilizam a OutSystems Platform internamente?

P.R. – Sim e temos instalações gigantescas. Nós temos mais de 300 servidores a serem utilizados pela OutSystems em várias versões da plataforma.

B.F. – Como é o processo de introdução de novas funcionalidades? Aproveitam as sugestões dos clientes, fazem “brainstormings” regulares?

P.R. – É o resultado de muitos inputs. O primeiro é uma visão de longo prazo, uma visão interna de mudança do mundo em que o nosso objectivo é basicamente fazer com que o departamento de TI deixe de estar no caminho da inovação e da mudança das empresas. O nosso objectivo é criar tecnologia que consiga ser tão rápida e tão fácil de utilizar que basicamente passe a ser tão necessária, como respirar ou comer. É isto que nós queremos fazer. É um objectivo bastante grande e muito visionário. Para chegarmos lá, nós temos um caminho. Implementamos parte da visão, damos um saltinho na direcção pretendida e misturamos tudo com os trends da indústria, a concorrência. Para nós, os clientes são muito importantes, bem como os “prospects”, os potenciais clientes que nos dizem o que gostariam de ter visto no produto que estão a avaliar. É com base em tudo isto que tomamos as decisões. Considerando o que referi, nota-se que a solução da OutSystems é um produto que tem uma visão muito forte por trás. Normalmente andamos sempre em contraciclo da indústria. Por exemplo, quando as pessoas andam a falar em bigdata, nós falamos em usabilidade. Nós fazemos as coisas com base numa visão e numa percepção muito própria e temos sempre em mente que tudo aquilo que nós fizermos, terá de fornecer valor acrescentado ao cliente. É por isso que somos tão competitivos.

P1020336B.F. – Existe alguma área de negócio, para a qual seja mais vantajosa a utilização da plataforma OutSystems?

P.R. – Temos 22 indústrias como clientes, inclusivamente até uma igreja. Isto significa que as soluções OutSystems são eficazes em todas as áreas de negócio.

B.F. – O que leva uma empresa a comprar OutSystems?

P.R. – Fundamentalmente será uma situação em que uma empresa precisa de ser altamente produtiva. Uma indústria altamente competitiva, uma pressão muito grande, todas estas coisas que criam uma necessidade de mudar. A partir do momento em que existe uma mudança constante, os sistemas tradicionais começam-se a partir e não há dinheiro para colocar um grande integrador de sistemas a ganhar muito dinheiro e a fazer muito pouco. Sempre que há uma mudança, um evento disruptivo, e actualmente existem cada vez mais empresas nestas condições, a OutSystems é uma boa solução. Por exemplo, no ano transacto crescemos 20% com a crise. Tudo isto, porque ajudamos as empresas a pouparem dinheiro e fazemos mais com menos. Estas proposições de valor tanto funcionam nas vacas gordas como as vacas magras.

B.F. – Qual é o perfil do colaborador OutSystems?

P.R. – Nós temos um livro de cultura chamado “The Small Book of The Few Big Rules” que consiste fundamentalmente num conjunto muito pequeno de sete regras de comportamento que para nós são draconianas. Avaliamos todas as pessoas por este livro. Tipicamente, o colaborador OutSystems tem características muito diferentes daquilo que se encontra na maioria das empresas europeias. Temos uma regra fundamental, o “ask why”. Um colaborador só faz alguma coisa, se souber o que está a fazer. Somos um bocado paranóicos com problemas. Por isto temos uma regra que é a regra das crises pequenas. Uma crise tem de ser resolvida quando é pequena e trata-se com a mesma urgência com que se trata das crises grandes, logo não temos crises grandes. As crises grandes já foram pequeninas. Enfim, este tipo de coisas faz com que quando ocorre um problema com um cliente, metade da companhia fica mobilizada. Isto resulta numa cultura de muita entre-ajuda e muito racional. Pode não ser uma família no verdadeiro sentido da palavra, mas é uma organização profissional onde as pessoas se sentem bem, têm brio e criam coisas que são extraordinárias. Aliás, tudo isto é visível pela qualidade do produto e serviço que pretamos. Na OutSystems reina uma cultura de exigência connosco próprios, de brio. O que é que depois procuramos? Normalmente procuramos pessoas que sejam espertas e que tenham energia, que tenham “drive” e não sejam moles. Tentamos procurar pessoas que não sejam moles, a maioria das pessoas não o são. Às vezes vêm é um bocado “partidas” do sítio onde estiveram a trabalhar, porque o contexto actual destrói a motivação de muitas pessoas. Isto para nós não é problema. Quando uma pessoa entra na OutSystems, ao fim de um mês está transformada. Outros aspectos que valorizamos é o a esperteza, não deixar pontas soltas e a honestidade. Quando verificamos que uma pessoa é irresponsável, ou mole, ou então não é muito íntegra, nós não contratamos. Tudo o resto é transformável.


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